
Há cerca de 9 meses que deixei o carro de lado (a princípio por motivos financeiros, mas depois por opção), e hoje acredito ter uma idéia razoável de como é a vida sem carro. Afinal, tive carro desde que isso foi possível: minha carteira de motorista tem a data do meu aniverário de 18 anos.
Meu primeiro carro que andou mais de 50 km (afinal, o primeiro mesmo não durou nem um dia, pois fundiu o motor 2 horas depois da compra) foi um Voyage 1985 a álcool. Toda vez que ia ligá-lo tinha que abrir o capô,abrir a entrada do carburador e espirrar um pouco de gasolina lá dentro. Tinha até um spray de desodorante com gasolina num canto embaixo do capô. Andei horrores com ele. Morava em Campinas e voltava todo fim-de-semana para São Paulo. Fiz altas viagens (altamente perigosas) com ele, enfim, marcou. Eu me sentia de fato em um comercial de carro: me sentia livre, poderoso e adulto.
Depois, troquei por um Uno 0km. Com o dinheiro da venda do Voyage e mais um pouquinho, dei a entrada nesse e parcelei o saldo em 24 vezes. Paguei tudo em dia. Pagava também seguro. Pelo menos 50% (provavelmente mais) da minha renda ia para pagar o carro, o seguro e a gasolina. Mais uma vez, esse foi bem aproveitado também. Viajei para um monte de lugares com ele, dentro e fora do estado. Logo após quitar o carro, fiquei meio sem dinheiro, e não pude renovar o seguro. Não deu outra: roubaram o carro. Parece até que tinha alguém lá, espreitando, esperando eu não pagá-lo para roubar. E assim foi.
O que fazer? Comprar outro, oras! Afinal, viver sem carro em São Paulo é impossível, não? Comprei. E dessa vez a entrada foi menor, e a parcela do financiamento maior, assim como o seguro. Passei, basicamente, a trabalhar para pagar o carro. Ao mesmo tempo, usava-o cada vez menos. Não tinha mais que viajar todo fim-de-semana, e percebi que era mais prático ir ao trabalho de ônibus ou de bicicleta. Eu mal andava de carro durante a semana. Só fim-de-semana, e olhe lá.
Quando saí do trabalho para voltar a estudar, não pensei duas vezes: vou me livrar do carro. Até porque não tinha mais como pagar todo aquele pacote (financiamento, seguro, ipva, gasolina, manutenção, etc). Vendi. Nos primeiros dias, achei a coisa mais divertida do mundo. Tive uma sensação de liberdade diferente: não precisava estacionar em nenhum lugar. Não tinha que me preocupar com se o carro ia ser roubado. Não tinha que ficar atento ao trânsito. Meu corpo estava em contato direto com o ambiente, e não mais limitado por uma célula de aço. Isso e a sensação boa de ter um belo dinheiro a mais para outras atividades.
Uma coisa é fato, e eu percebi nitidamente. A sua relação com a cidade, com a rua, muda bastante. Aquela sensação de segurança que o carro proporciona é altamente traiçoeira e negativa. Pude perceber que, quando andava de carro, minha percepção da cidade era origem-via-destino. Ou seja, a cidade, exceto nos pontos de origem e de destino da sua rota, passa a ser apenas uma via de acesso. Com isso, você quer, cada vez mais, que o caminho seja mais curto e rápido. Mas esse “caminho” é a cidade em si. Ou seja, com o uso indiscriminado e dependente do automóvel que temos, criamos a tendência de criar cada vez mais vias expressas, grandes avenidas, viadutos, etc, que deixam a “via” (a cidade) cada vez mais cinza e impessoal. Assim, o caminho feito pelos automóveis vai levando, consigo, poluição, asfalto, viadutos e minhocões, que enfeiam a cidade, e fazem com que a visão que os motoristas têm da cidade seja pior ainda, levando-os a sentir-se ainda mais protegidos, dentro dos carros, daquele ambiente “hostil”.
Pois bem, ao passar à condição de pedestre, duas coisas mudaram: primeiro, a cidade passou a ter um aspecto mais humano. Vejo pessoas andando, cachorros, camelôs, árvores, diferentes tipos de calçada, trechos de conversas em um bar. Na verdade a cidade não é hostil, não. Aquelas pessoas andando à noite na rua deserta não são assaltantes que farão o primeiro pedestre de vítima. O cheiro da rua não é o mesmo do Tietê. Segundo, você percebe como uma calçada esburacada e mal-cuidada atrapalha. O quanto faz falta mais árvores. Anseia por menos poluição visual. Você fica mais cidadão, em suma. O bem-estar que você almeja é o que beneficia seus outros colegas de calçada. Uma calçada escorregadia te deixa preocupado com uma velhinha andando nela na chuva. O ponto em que quero chegar é: a partir do momento em que você não mais está isolado dentro de um carro, a melhora do ambiente comum passa a ser algo que você deseja.
Passemos agora ao transporte público. São Paulo tem a maior frota de ônibus do mundo. É um monte mesmo. Mas, mesmo assim, há uma certa unanimidade em afirmar que o transporte público em São Paulo é péssimo. Não vou dizer que é uma maravilha, porque realmente não é. Tudo leva mais tempo: primeiro esperar o ônibus chegar, depois, o tempo dele andando, além do segundo ônibus que você provavelmente tem que pegar. Mesmo assim vou dizer, sem medo de errar: o maior problema do transporte público de São Paulo é o trânsito. Afinal, os ônibus têm cadeiras acolchoadas, tem linha pra tudo quanto é lugar, e, com o bilhete único, tem um preço razoável. O que, são muito lotados? Na Europa os ônibus que eu pegava eram tanto ou mais lotados que os daqui. O problema mesmo é a demora, causada pelo trânsito, que é causado pelo excesso de automóveis em circulação. Prova disso é ver que conheço gente, e já li que isso realmente ocorre, que tem carro mas prefere ir de ônibus quando o caminho é feito em um corredor de ônibus. Com eles, os horários dos ônibus ficam mais regulares e as viagens muito mais rápidas.
Se tem uma coisa que eu concluí nesses 9 meses é a seguinte: devemos promover uma profusão enorme de corredores de ônibus pela cidade. Todas as grandes avenidas devem ter corredores de ônibus. Não há cultura automobilística que resista a um meio de transporte mais rápido e prático, aliado a um transporte de carro mais lento.
Enfim, vou parar por aqui, pois este já deve ser o maior post que eu já escrevi. Só esclarecendo alguns pontos finais, não é que eu seja “contra carro”. Acho que usar carro como base do transporte em uma cidade como São Paulo algo simplesmente inviável. Em cidades menores pode até ser, mas nesse caso, por que não andar mais, ou bicicleta? Vejam a saúde dos holandeses! O carro é algo muito útil, e é bom ter um por perto em várias ocasiões. Mas por que não dar mais caronas? Nas saídas das casas noturnas a cena é sempre a mesma: um grupinho de 4 pessoas, cada um saindo com seu carro. O que custa dar uma carona uma vez e ganhar na outra? Outra: ao contrário de muitas pessoas, não acho que a solução para o transporte de pessoas no Brasil seja a volta dos trens de passageiros. Pra um país do tamanho do Brasil que além disso é geograficamente espalhado, é inviável. Acho que, para transporte de passageiros de longa distância a solução é uma combinação avião, avião-carro, avião-trem ou avião-ônibus.
E se vale a pena largar o carro? Para o dia-a-dia (trabalho, faculdade, etc), com certeza. Muito melhor ficar 1 hora no ônibus ouvindo seu iPod e pensando na vida que meia hora de stress. Para o fim-de-semana, se você puder pagar o taxi, tá feito. Senão, talvez um “carrinho de fim-de-semana” possa ser interessante. Eu tenho pensado em um fusquinha…