O trânsito como meio de vida
Cheguei em São Paulo na Quinta-Feira, de carro, com as minhas coisas, lá pelas 16h. Entrei na cidade e lá estava ela: a marginal devagar-quase-parando. Nada mais paulistano que isso: curtir um trânsitozinho… Até aí nada de mais, mas tenho reparado o surgimento de um comércio às margens das marginais (que confuso!) muito curioso. O pessoal está montando barraquinhas de doces, salgados e bebidas nas marginais. Isso mesmo, naquela avenida que tem placa de velocidade máxima de 90 Km/h! O fato é que a velocidade está tão abaixo dessa que você tem tempo de chamar o vendedor com o produto, pagar e receber o troco.
Vendo essa cena, resolvi extrapolar um pouco e perguntar: até onde pode ir a “indústria do trânsito”? Vejamos um exemplo de um futuro não muito distante:
Roberto acorda, como sempre, às 7h. Toma banho, se veste e sai de casa às 7h30. Para chegar ao escritório às 8h? Nem em sonho. Roberto mora em Alphaville e trabalha na Av Paulista. Seu trajeto de casa ao trabalho é: pega a Rodovia Castello Branco até a Marginal Pinheiros, anda nela até a ponte Euzébio Matoso, sobe toda a Av Rebouças e pega metade da Av. Paulista. Pobre Roberto, leva entre 2h a 2h30 para ir de casa ao trabalho. Em um dia com trânsito razoável.
Mas Roberto é um executivo moderno, e sabe usar o tempo de trânsito para seu trabalho. Seu colega Antônio mora no condomínio Tamboré 4, pertinho de Alphaville. Marcaram reunião às 7:50. Antônio pegou um táxi até a entrada da Castello Branco e encontra o carro de Roberto. Ele entra no carro de Roberto e começa a reunião. Pelo viva-voz, o gerente de TI, Jeferson, participa também da reunião. Jeferson mora no Morumbi, e também está a caminho do escritório. Ter que guiar o carro não atrapalha Roberto nem Jeferson na reunião, afinal para engatar primeira, acelerar 20 metros e colocar ponto morto de novo não precisa de muita atenção.
Após alguns minutos de reunião, Jorge, o diretor geral da empresa, liga para Roberto:
- Alô, Roberto? Como vai?
- Tudo muito bom, Sr. Jorge. Estamos definindo nossa estratégia para responder àquele produto do nosso concorrente.
- Perfeito. Roberto, é o seguinte: a Geórgia (secretária de Jorge) me disse que precisa urgentemente do seu relatório para entregar para o representante alemão, porque ele vai hoje antes do almoço de volta para a Alemanha.
- Ok, Jorge, ele está aqui comigo. Mande um motoboy.
- Ok, onde você está?
- No Km 12 da Castello Branco.
- Em uns 20 minutos passa aí o motoboy. Qual é o seu carro mesmo?
- Um Vectra prata, placa final 2452.
- Perfeito. O representante me disse que vai pegar um taxi daqui a 10 minutos. Terei que usar o expresso.
- É, imagino.
- Bom trabalho, Roberto, pode continuar com a sua reunião.
O serviço expresso, ao qual se referia Jorge, é a entrega car-to-car: o motoboy pega a encomenda em um carro e entrega em outro. O fato de o trânsito andar a uma velocidade quase nula possibilitou o surgimento de esse tipo de serviço. Mais quinze minutos de reunião e Antônio pergunta:
- Já tomou café, Roberto?
- Não, eu tomo sempre no Fran’s Café Express 9, no Km 9.
- Ah, sim, tou vendo já.
- Eu tenho aqui o cardápio deles, pode escolher que é por minha conta.
Um pouco mais adiante, vem o atendente, patinando entre os carros:
- Bom dia, senhores. Café da manhã completo para dois?
- Não, obrigado. Para mim uma coissant recheada com peito de peru, um café com leite e um pedaço de mamão.
- Sim, senhor. Em dois minutinhos sirvo os senhores.
Três minutos depois vem o funcionário com duas bandejas em suportes e as coloca nas janelas do Vectra de Roberto.
- São R$ 15,45.
- Aqui está.
- Muito obrigado, e volte sempre.
A reunião tem uma pequena pausa para o café da manhã. Como alguns clientes são muito demorados no café da manhã, no Km 6 há um ponto de devolução da bandeja. E é onde Roberto e Antônio as devolvem nesse dia.
Já às 8h30, eles se encontram na Marginal Pinheiros. Sendo essa uma via de circulação de pessoas de alta renda, desenvolveu-se um sofisticado “Drive Shopping” nas suas marginais entre a ponte do Morumbi e a Euzébio Matoso. Diversas grifes, livrarias e lojas de diferentes produtos se instalaram por lá, em instalações que não devem em nada às suas equivalentes em shopping centers. As lojas de roupa, por exemplo, possuem provadores e os vendedores se engarregam de andar alguns metros com o carro do cliente enquanto este experimenta seu vestuário. Um grande avanço obtido pela associação de “lojas spot”, como foram chamadas essas lojas, foi um convênio com o Detran de São Paulo, que possibilita a cobrança pela placa do veículo. Com isso ficou tudo mais prático e simples.
Mas Roberto e Antônio não compraram nada no Drive Shopping dessa vez. Estavam ocupados trabalhando, da mesma forma que muitos nos carros vizinhos. Com notebooks com rede sem fio, transformam o Vectra em um verdadeiro escritório ambulante. Às 10h chegam, finalmente, ao escritório. Trabalham duas horas e saem para o horário de almoço. Essa refeição é a única que fazem fora do carro. Das 13h às 17h, possuem uma rotina normal de trabalho em um escritório típico.
Às 17h, pegam novamente o carro e vão em suas longas jornadas de volta a casa. Para efeito de folha de pagamento, estão trabalhando desde o instante em que entraram no carro. Às 18h, quando estão passando em frente ao Shopping Eldorado, iniciam o curso de inglês que a empresa oferece a seus funcionários, em convêncio com a Seven Idiomas, que tem sua sede lá. O professor entra no carro e inicia suas aulas de conversação, com duração de 50 minutos. O trânsito chegou ao ponto em que a duração dos trajetos passou a ser previsível, e 52 minutos depois do início da aula Roberto deixa o professor na unidade Marginal Pinheiros da escola.
No sentido Morumbi da Marginal Pinheiros, onde se encontram Roberto e Antônio às 19h, o Drive Shopping abriu filiais de alguns dos melhores restaurantes da cidade. E é exatamente lá que Roberto e Antônio jantam todos os dias. A variedade de cardápios é de dar inveja a qualquer zona de restaurantes da cidade. Para casais montam até um romântico jantar à luz de velas (com um adaptador para vela no porta-copos dos carros). Embora tenha sido proibido pelo Detran, a faixa da direita da Marginal Pinheiros, à noite, transformou-se em um grande motel. Antecipando-se à demanda, a rede de motéis Vip’s inaugurou seu serviço “Vip’s Express”. Funcionários aguardam os clientes pararem e instalam cortininhas nos carros, para garantir privacidade.
Enfim, ficar no trânsito passou a ser tão produtivo quanto quando não há trânsito. Nos poucos momentos em que há pouco tráfego nota-se uma redução da atividade econômica. Projetos que teriam como finalidade melhorar o fluxo do tráfego sofrem pressão do poderoso lobby dos lojistas spot, cuja associação é uma das mais fortes da cidade.
17. October, 2004 at 09:16
Em tempo: deveríamos fazer um tratado sobre o modo de vida nas cidades grandes em tempos pós-modernos.
Bjo