O pior do Brasil é o brasileiro?
99% do tempo me considero um nacionalista. Na minha opinião o nacionalismo é como religião: não é pautado pela razão, mas pela fé. Você simplesmente se identifica com a faixa territorial onde nasceu. Ok, em outros lugares a definição pode ser um pouco mais complicada, mas vou me ater à questão de “ser brasileiro”.
Bom, o fato é que eu acho o patriotismo e o nacionalismo algo importante para o desenvolvimento e a coesão de um país em torno de seu desenvolvimento. Como geralmente eu ajo de acordo com minhas crenças, coloco em prática meu patriotismo sempre que possível. Valorizo muito meu voto, defendo a imagem e a reputação do país para estrangeiros e para os próprios brasileiros, penso no que é melhor para o país em muitas das minhas ações. Isso tudo vai criando uma aura em volta das fronteiras que te leva a pensar que realmente é tudo de bom ser brasileiro.
Pois bem. Hoje eu assisti a uma entrevista no Jô, muito mal entrevistada – como sempre, com um doutorando em psicologia social chamado Fernando Braga da Costa. Um carinha muito inteligente e simpático pelo que deu para ver na entrevista, e que fez um trabalho bem interessante. A idéia básica era trabalhar como gari, e tirar valor da experiência. A tese dele virou livro (Homens Invisíveis: Relatos de uma humilhação social, vou ler semana que vem), e do livro veio a entrevista. As coisas que ele relatou são incrivelmente evidentes e cotidianas, mas que sob um olhar menos cotidiano e mais profundo nos leva a questionar o tipo de vida que levamos.
O gari, assim como o faxineiro da faculdade ou do shopping center, são apenas uniformes ambulantes. Não são pessoas. As pessoas desviam deles como se desvia de um poste ou de uma árvore. Essa vivência é relatada por Fernando na entrevista. Segundo ele, um dia ele andou por toda a faculdade, pelo bandejão, esbarrou com professores, e em nenhum momento foi reconhecido. E estamos falando de amigos próximos e professores que o reconhecem, “vestido de estudante”, a vários metros de distância. Trata-se, portanto de seres humanos na prática invisíveis. Por que ninguém o reconheceu? Porque ninguém olha para o rosto de um gari.
O pior de tudo é que parei para pensar e reparei que eu também ajo assim. E se me perguntar se eu considero garis ou faxineiros alguém diferente ou inferior a mim responderei enfaticamente que não. Na prática, não é bem assim. E por que isso ocorre? Culpa da sociedade. É um chavão, é usado como desculpa para tudo, mas é a verdade. Fui contaminado desde meu nascimento. Pessoas que cresceram em ambientes diferentes não são assim.
Ou seja: a sociedade brasileira forma: pessoas visíveis, que não vêm as invisíveis, e as invisíveis, que sofrem a pior das humilhações – a total indiferença. E como se isso não bastasse, as condições de trabalho dessas pessoas são psicologicamente cruéis, com hierarquia, rigidez e opressão. Esse tipo de comportamento gerou, na minha opinião, uma pérola vergonhosa da língua portuguesa na forma da frase “Com quem você pensa que está falando?”.
Enfim, esse tipo de coisa é um forte choque na idéia de nacionalismo e de que “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Não digo que só sossegarei com uma sociedade utópica em harmonia, mas essa arrogância hedionda praticada por quem usa essa frase é também praticada em doses lentamente letais por quase todos nós que tornamos invisíveis pessoas que são verdadeiros heróis da resistência do país.
Prometo olhar mais no rosto das pessoas. Tenho certeza que perdi muita coisa sendo assim. E você, cumprimenta seu porteiro todos os dias? Se não, pode estar perdendo um bom amigo.
9. October, 2004 at 08:43
Eu vi a entrevista tbm. É isso aí e um pouco mais.
13. October, 2004 at 21:49
cumprimento 3 deles. o quarto deixo quieto, porque não gosto dele (não pela aprência, ou algo do tipo. não gosto pelas atitudes..ou melhor, não atitudes dele).