A beleza da complexidade

O que nos faz humanos? Bom, essa é uma pergunta típica, que tem várias respostas, quase todas delas corretas. Você escolhe um desses fatores e segue em frente. Hoje vou dar uma definição um tanto exatóide: não somos lineares, não somos polinomiais, não somos exponenciais, logaritmicos ou módulo-n. Somos complexos. Mas quando falo complexo não estou me referindo àquele uso evasivo da palavra (”ah, isso é muito complexo…”). Isso porque, se em algum momento quisermos entender os fenômenos sociais e humanos de uma forma verdadeiramente transitável e expansível em seus conceitos por si só, devemos utilizar alguma forma de desenvolvimento lógico puro. Em outras palavras, temos que entender o funcionamento de fenômenos do nosso mundo de uma forma precisa em sua metodologia (ou seja, não necessariamente nos seus resultados).

Indo além da aplicação de essa idéia nas ciências sociais aplicadas (como na Agent-Based Computational Economics ), a idéia de analisar os problemas com base em agentes heterogêneos e trocas complexas tem, por trás dela, ao meu ver, a crença de que o que está na essência das observações sociais e do resultado das ações humanas é na verdade fruto de comportamentos individuais independentes aglomerados de uma forma verdadeiramente caótica.

A parte interessante disso tudo é que acredito que você pode, ao invés de observar apenas os resultados das interações em valores finais ou intermediários, que constituem dados jogados e de pouco valor analítico, ver na caótica rede que foi formada a essência das causas, sua reproducibilidade e suas sub-relações.

Vou ser específico. A internet é a maior dessas redes. Você tem milhões de pessoas ligadas entre si de forma não-ordenada, autônoma e livre. Muitas delas hoje possuem blogs. Considere-os como a unidade mínima do agente. Seu conteúdo é a produção artística, científica, profissional, jornalística e em sua maioria de bobagens de uma pessoa nessa rede. Uma forma de analisá-los seria listá-los, separá-los por assunto e catalogar a “produção” individual de cada agente, a “produção” global por assunto, etc. Nesse caso você está tratando-os como simples unidades isoladas de informação, que está pelo menos catalogada.

Uma característica dos blogs é que possuem, em sua absoluta maioria, links para outros blogs. Trata-se de blogs de amigos e de assuntos relacionados. Esses links podem ser vistos como uma relação significativa entre esses dois agentes (esse tratamento dos links como algo semântico é a essência do surgimento do Google). Temos agora, assim, não mais apenas “cápsulas” de informação isoladas. Há relação entre elas, e talvez essa relação possa dizer muito sobre as próprias “cápsulas”. Se definimos um blog como sendo “confiável”, seus links também devem ser confiáveis. Se ele possui apenas dois links, então, os blogs para os quais ele aponta devem ser bem confiáveis. Se o blog A fala sobre comida mineira, existe uma boa possibilidade de que o blog B, para o qual ele aponta, também fale sobre esse assunto. O blog C, para o qual o B aponta, também tem uma chance de falar sobre comida mineira, mas menor do que B. Se o blog C aponta para A, no entanto, a chance de que ele fale sobre isso é maior.

Repare que nós só sabemos que o blog A fala sobre comida mineira. Todas as outras conjecturas foram feitas sem ter a mínima idéia sobre o conteúdo de B ou C. Apenas as ligações e seu significado semântico nos levam a levantar essas possibilidades. As redes podem, portanto, nos informar muito sobre o ambiente em que se situam. Quanto mais complexa a rede, maiores são as possibilidades de inferência de informações das mesmas. Repare que inicialmente a relação era A->B->C, ou seja, uma rede simples e unidirecional. Ao fecharmos o ciclo a história muda.

Acho esse um assunto fascinante. Imagine, por exemplo, o que você poderia fazer de experimentos interessantíssimos com a base de dados do Orkut.

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