Sobre a confiança
Tem uma coisa que eu sempre considerei fundamental para uma vida em sociedade feliz, pacífica e ideal: confiar um no outro. E digo confiar por padrão, ou seja, primeiro confiar na pessoa e depois, conhecendo-a melhor, ver se realmente essa é uma boa idéia. Uma experiência minha recente me deixou meio abalado nesse sentido.
Sempre que conheço uma pessoa, por mais rápido que seja o contato, tendo a confiar no que ela diz, inclusive em aspectos que possam me atingir. Não é nada assim tão consciente, algum tipo de mobilização social solitária, eu simplesmente acho que não confiar em alguém que não se conhece é injusto.
Pois é, há algumas semanas uma mulher bateu no meu carro. Eu estava, inclusive, com minha mãe, meu irmão e uma amiga no carro. Paramos o carro e a mulher veio toda nervosa, tremendo dos pés à cabeça, falando que a mulher do lado direito (“aquela paraguaia” segundo ela) tinha feito ela bater, etc. Parecia que ela estava prestes a ter um infarto. Nós tranquilizamos ela, perguntamos se estava tudo bem, e ela totalmente tensa dizia que não. Me passou o telefone dela, e eu nem anotei a placa do carro dela (a Inês, a amiga no carro, anotou), e liberei-a, certo de que a situação seria resolvida de uma forma simples depois, com ela mais calma. Não peguei testemunhas, nada disso. Confiei, enfim.
O resto da história muitos já podem prever: liguei pra ela, ela disse que ia ligar para um funileiro, etc, e não retornou. Nas outras ligações que eu fiz ela nunca estava, atendia sempre o filho dela, dizendo que ela não estava. Eu deixava o telefone, e nada.
Algo como três semanas depois do ocorrido (semana passada), eu liguei mais uma vez, e ela atendeu. Eu falei que ela estava fugindo de mim, etc. O que ela disse? Que ela não tinha batido no meu carro, que nada tinha acontecido, que a culpa era minha, que eu poderia ter batido o carro depois de propósito, etc. Traiu a confiança de uma forma brutal. Não adianta mais. Ela não vai pagar pelo que ela fez.
Isso tudo me fez pensar um pouco mais sobre meu “princípio” de confiar nas pessoas em que não se conhece. Afinal, vale a pena? Acho que eu perdi mais do que dinheiro nessa história: minha boa vontade com um desconhecido foi arranhada, assim como o meu carro. Da próxima vez farei diferente: vou juntar testemunhas, chamar a perícia, etc. Mais do que evitar novas perdas, evito mais uma decepção.
Outro fato dessa semana, no entanto, me deixou feliz. Consegui alguém que me hospede em Amsterdam na minha viagem. Uma pessoa que não me conhece confiou em mim sem nem me conhecer pessoalmente. E com isso, tenho certeza, ambos ganharão. E tantos outros ganhariam se agissem assim. Da mesma forma, eu ganhei ao confiar no casal de franceses que se hospedaram em casa, e eles também.
Fica difícil, portanto, chegar a alguma conclusão de isso tudo. Se por um lado a confiança me rendeu bons momentos, por outro rendeu outros maus. Mas perceba: se não tivesse confiado, não teria conhecido os franceses e possivelmente teria o carro consertado. A questão é: para quê você dá valor?
1. June, 2004 at 18:33
Caro, q dificuldade postar um comentário aqui nesse negócio!! vou te contar, viu! mas depois de ultrapassados os obstáculos tecnológicos, cá estamos!
Direto ao ponto: confie! não nas pessoas, desconhecidas ou não, mas no seu sexto sentido! Eu tbm já tive inúmeras decepções e frustrações com relação a essas coisas de confiança. Sempre depositei uma confiança meio gratuita nas pessoas, como tu. Mas depois de bater com a cara na porta várias vezes, entendi que vale mais confiar na minha percepção, que é bem aguçada. Não sei tu, mas eu tenho essa coisa de feeling, sabe? è coisa de bater o olho e tentar sacar a pessoa. Sei que é complicado pq vai que meu sexto sentido resolve me pregar uma peça e acabo “sacando” alguém de forma equivocada… mas sei lá! é complicado mesmo! Só sei que resolvi criar uma espécie de mecanismo de defesa qdo notei que depositar essa tal confiança nas pessoas assim, de cara, é uma coisa “não mto recomendável na sociedde atual”. Já me considerei ingênua, boba e ´ridícula por ser assim, passional, impulsiva… mas sei que isso tem os seus lados bons e ruins. Hoje eu tento encontrar um meio-termo. Não ser mais tão ingênua assim, mas tbm não generalizar e radicalizar de vez, achando que esse é um mundo de egoístas, q ninguém liga um pro outro, q tem sempre alguém querendo te sacanear e q nunca se pode confiar no que as pessoas dizem. Enlouqueceria e acabaria me matando no dia em que achasse que o mundo virou isso. Mas, de fato, hoje tento não confiar tanto nas aparências (no sentido do que as pessoas aparentam ser) porque sei que essas aparências enganam. Bom, mas isso é uma discussão mto longa e eu já viajei demais. Ainda tenho mto o que escrever p amanhã cedo. A madrugada é longa. Mas não fique tão desiludido com a humanidade. Como falaste, a questão é “p que vc dá valor” e ainda acredito que é possível se conhecer pessoas que dêem valor p os mesmos princípios que os nossos, mesmo que não seja tão fácil assim encontrá-las atualemnte.
Aliás, cadê a resposta do meu email?
Beso. Rê.
1. June, 2004 at 19:00
Hmmm… Vou matar dois coelhos de uma vez e responder por e-mail mesmo